Miguel Torga
Um escritor genuíno
Portugal tem em Miguel Torga o seu escritor mais genuíno. Conheci-o um dia nos Açores, num daqueles princípios de Verão em que tudo é propício a um regresso a casa: a terra e o tempo da infância como que se iluminam para virem ao encontro do olhar e do ser que em nós regressa; corpo e alma juntam-se à ideia de uma completude pessoal, só nossa, no momento desse reencontro com o lugar de onde um dia partimos de largada para o mundo e para o absoluto da nossa própria transcendência.
Olhei-o de perto, falei-lhe, viajei com ele, ficámos amigos. Houve depois cartas, livros, uma conversa de horas em Coimbra, sinais, recados, amigos comuns, a vida. Vi que tudo nele era uno e íntegro e genuíno. Não haveria outra unidade tão assumida, entre a pessoa e a obra que lhe projectara o nome pelos quatro cantos do mundo. Continuavam nele, intactos, os itinerários e os destinos daqueles extraordinários "Contos da Montanha" que tanto haviam acordado em mim a consciência do lugar e do povo; persistiam, na sua pele e nas suas mãos, os montes e os rios, o campo e a lida, os rebanhos e os caminhos, as fragas, as urzes, a penedia na paisagem, as naturezas fortes e austeras - e a ânsia infinita de passar por cima de tudo isso, para vencer fronteiras, subir a meseta ibérica e perguntar ao ouvido e ao coração do universo onde estava, como era o centro do mundo. Havia ainda, no rosto e nos olhos de Torga, a consciência dos mitos pessoais que tinham feito dele um poeta duro, um montanhês ibérico, porventura um português tão radical como aquele que atravessou os seis purgatórios da "Criação do Mundo" para afinal descansar ao sétimo dia no Portugal que palmilhou vezes sem conta; no qual viveu com o mesmo sentido peregrinal dos andarilhos históricos ou eternos, e cuja ideia nunca trocou por nenhuma outra.
O dia em que o conheci nos Açores foi também o meu regresso a Torga. Ainda na escola primária, eu lera, boquiaberto, o realismo mágico de "Sésamo"; depois os "Bichos", mais tarde toda a sua obra (romances, poemas, diário, teatro, livros de viajem). Quando me tornei professor, passei a ensiná-lo à luz do roteiro ou itinerário desse meu imaginário dele - partindo das serras e das fragas para a grande Ibéria, e daí para a universalidade dos passos perdidos de um homem que fora desde sempre "habitado" por um ser telúrico que se expandia todo, e em definitivo, num texto de prosa ou de poesia simples mas "oculto": essa enganadora simplicidade profunda que só os autênticos frequentam ao longo de toda uma vida.
Hoje, o meu mito de Miguel Torga sou eu mesmo: o que ele me disse, o que me ensinou. Por exemplo, que a Literatura é um lugar de todos os lugares, e um tempo de todos os tempos; e que a universalidade, resistindo a essa abstracção de tempo e lugar, não tem melhor definição do que aquela que o próprio Miguel Torga nos deixou por escrito: "o universal é o local sem paredes".
João de Melo
Madrid, 15 de Maio de 2003