S. Martinho de Anta
É o princípio, o berço da memória, donde tudo flui.
São as origens, donde sempre se parte e a que sempre se regressa, que marcam o sentido da viagem. Neste simbólico centro de uma natureza primordial que o viu nascer, Torga refere-se ao seu paraíso, talvez perdido porque o deixou na infância, mas reencontrado na lembrança e nos constantes regressos. Ele mesmo nos convida a trilhar com ele o percurso de infância.
Subia a quelha, atravessava o Eirô sob a copa do negrilho, cumprimentava o Senhor Arnaldo, sempre de plantão nos cobertos, e diante da loja das Pintas, já levava a fralda de fora. [...]
A escola, ao fundo do povo, tinha mimosas à roda. Em frente, passava a estrada de macadame, há anos em reparação, que vinha do Porto e seguia até Bragança. [...] Com janelas rasgadas a toda a volta que dum lado deixava ver o Marão. [...]
Proibira-me de frequentar a venda do ti Faustino. Que já não era próprio. Mas, em troca, propunha-me o palacete do brasileiro. E acabei por aceitar.
Passava como um foguete pelo Eirô, e um quarto de hora depois já estava a empurrar o portão da Vila Condor, conforme se lia no arco de ferro que o encimava. Sob um túnel de videiras e macieiras, atravessava o quintal, e chegava à enorme vivenda de granito e vidro, com divisões de pé direito desmedido, frias e alumiadas a acetilene, que custara rios de dinheiro ao dono. Erguera num chavascal aquele casarão isolado e desconfortável, que uma reprodução em faiança do abutre dos Andes, de asas abertas no telhado, tutelava.
A Criação do Mundo
Casa Natal
Nos constantes regressos a S. Martinho de Anta, Miguel Torga deambula pela aldeia, conversa com as gentes locais, percorre o monte da Senhora da Azinheira na sua devoção da caça. Mas é a
sua casa , após a morte dos pais, que se vem a revelar como um dos espaços mais valorizados ao tornar-se o lugar-onde da escrita, como se depreende do Diário e deste trecho de A Criação do Mundo.
Agarez aumentou de significação na minha vida. [...] Entrara luz nos quartinhos sombrios, um desafogado fogão de sala substituíra a fumarenta lareira sem chaminé, o cortelho dos porcos dera lugar à garagem, um poço aberto no quintal dispensava os carregos consecutivos de água da fonte, o quinteiro do estrume era agora um pátio ladrilhado, de leitura e repouso.
A Criação do Mundo
A Primavera estava no seu esplendor. A azálea amarela à entrada do portão parecia um sol vegetal. Os lilases enchiam o ar de perfume quente. As glicínias caíam em festões do muro do quintal. Nos campos, em aleluia também, as papoilas sorriam e as espigas ondulavam.
A Criação do Mundo
Monte S. Domingos
O Monte de S. Domingos constitui-se como lugar de inspiração. Aqui teve Miguel Torga a revelação do seu destino, num entendimento primordial da concepção do mundo que caracteriza a sua obra.
S. Martinho de Anta, 30 de Setembro de 1957 ¾ Penosa arrancada ao monte de S. Domingos. [...] Foi ali que num remoto dia da mocidade me senti consciente do meu destino de artista, bafejado por que não sei estimulante vento do espírito. Ali ia retemperar a lira quando a sentia bamba. E era ali que eu devia ir dizer adeus para sempre ou por algum tempo, à força oculta que, depois do transe, nunca deixou de me impelir ou guiar. Por isso, em silêncio, religiosamente, como um peregrino que fosse pela última vez à sua Meca, subi, subi, e desci novamente ao vale de lágrimas da vida.
Diário VIII
Trás-os-Montes
O território torguiano, como o poeta tão bem trasladou em forma de letra para a sua obra, é todo o Portugal, e é ainda a Ibéria. Neste roteiro é, no entanto, obrigatório delimitar, nesta vastidão espacial, as principais fronteiras. Eis Trás-os-Montes.
[...] berço que oficialmente vai de Vila Real a Montalegre, de Montalegre a Chaves, de Chaves a Vinhais, de Vinhais a Bragança, de Bragança a Miranda, de Miranda a Freixo, de Freixo à Barca de Alva, da Barca à Régua e da Régua novamente a Vila Real, mas a que pertencem Foz-Côa, Meda, Moimenta e Lamego - toda a vertente esquerda do Doiro até aos contrafortes do Montemuro, carne administrativamente enxertada num corpo alheio, que através do Côa, do Távora, do Torto, do Varosa e do Balsemão desagua na grande veia cava materna as lágrimas do exílio.
Um mundo! Um nunca acabar de terra grossa, fragosa, bravia, que tanto se levanta a pino num ímpeto de subir ao céu, como se afunda nuns abismos de angústia, não se sabe por que telúrica contrição.
Terra-Quente e Terra-fria. Léguas e léguas de chão raivoso, contorcido, queimado por um sol de fogo ou por um frio de neve. Serras sobrepostas a serras . Montanhas paralelas a montanhas.
Nos intervalos, apertados entre os lapedos, rios de água cristalina , cantantes, a matar a sede de tanta aridez. E de quando em quando, oásis da inquietação que fez tais rugas geológicas, um vale imenso , dum húmus puro, onde a vista descansa da agressão das penedias. Veigas que alegram Chaves, Vila Pouca, Vilariça, Mirandela, Bragança e Vinhais.
Mas novamente o granito protesta. Novamente nos acorda para a força medular de tudo. E são outra vez serras, até perder de vista.
Portugal (Um Reino Maravilhoso - Trás-os-Montes)
Douro
A linha axial de Trás-os-Montes é o Douro, espinha dorsal de toda a região.
Miguel Torga vê
o Douro como um rio-macho, que avança furioso para o mar, cortando, à imagem do homem, o seu difícil caminho entre as serras. E para observar os trechos do rio, abruptos e poderosos, ou entrever o seu
trajecto de curvas acidentadas , o poeta indica-nos todos os miradouros que lhe abriram a visão antitética da sumptuosidade e da tragédia.
Nenhum outro caudal nosso corre em leito mais duro, encontra obstáculos mais encarniçados, peleja mais arduamente em todo o caminho [...]
Mas a própria beleza deve ser entendida. Não é subir aos restolhos de Lagoaça, contemplar o abismo, e quedar-se em êxtase. Não é espreitar de S. Salvador do Mundo o Cachão da Valeira, e sentir calafrios. Não é descer de Sabrosa para o Pinhão, estacar em S. Cristóvão, e abrir a boca de espanto. Não é ir a S. Leonardo de Galafura ou ao miradoiro de S. Brás, olhar o caleidoscópio, e ficar maravilhado. É compreender toda a significação da tragédia, desde a tentação do cenário, à condenação de Prometeu, ao clamor do coro.
Ser neste chão árido e hostil um novo criador de vida, dar aí uma resposta quotidiana à morte, transformar cada ravina em parapeito de esperança e cada bagada de suor em gota de doçura - eis o que o Titã ensinou aos homens, e o que Zeus lhe não perdoou. Por isso o seu perfil rebelde é o próprio perfil dos montes.
Portugal (Um Reino Maravilhoso - Trás-os-Montes)
Vila Condor
O
palacete de Vila Condor que Miguel Torga frequenta durante as férias, a pedido de seu pai, dado que a venda do Ti Faustino já não era lugar próprio para um seminarista, vem a ser um espaço onde se revela a arte musical que brotava das mãos de D. Palmira e o sensibilizava para arte.
(…) Passava como um foguete pelo Eirô, e um quarto de hora depois já estava a empurrar o portão da Vila Condor, conforme se lia no arco de ferro que o encimava. Sob um túnel de videiras e macieiras, atravessava o quintal, e chegava à enorme vivenda de granito e vidro, com divisões de pé direito desmedido, frias e alumiadas a acetilene, que custara rios de dinheiro ao dono. Erguera num chavascal aquele casarão isolado e desconfortável, que uma reprodução em faiança do abutre dos Andes, de asas abertas no telhado, tutelava. [...]
Mas nenhum triunfo lhe dava tanto orgulho como o diploma de curso de piano da D. Palmira, passado pelo Real Conservatório de Bruxelas, que mostrava encaixilhado na parede.
[...] E saía-lhe das mãos uma música celestial. Punha tal acento em cada nota, tanta vibração, que, aos primeiros acordes, por mais que lutasse, vinham-me as lágrimas aos olhos. Depois serenava, e ouvia o resto esquecido do mundo, numa espécie de levitação
A Criação do Mundo
Escola primária
Este espaço cultural foi o que marcou e impulsionou, de forma decisiva, o destino intelectual de Miguel Torga. Aí aprendeu a ler e se preparou para uma 4ª classe, saldada com distinção, sob a orientação do seu mestre-escola, o Sr. Botelho.
A escola, ao fundo do povo, tinha mimosas à roda. Em frente, passava a estrada de macadame, há anos em reparação, que vinha do Porto e seguia até Bragança. [...] Com janelas rasgadas a toda a volta que dum lado deixava ver o Marão ao longe, muito azul no verão e muito branco no inverno, mal se conhecia que em tempos fora caiado. Na frontaria, entre dois moirões a pino, bandeava-se a sineta. [...]
O senhor Botelho gabava-se de apresentar sempre os melhores alunos do círculo, sem uma reprovação em trinta anos de serviço.[...]
Os outros tiveram óptimo, e eu fiquei distinto.
A Criação do Mundo
Largo do Eirô
O largo do Eirô encerra em si um alto cruzeiro, semelhante a um pelourinho, ladeado por um fontenário neoclássico e pelo velho negrilho que o poeta eternizou em sua escrita, hoje reduzido ao tronco principal. É, na verdade,
o Negrilho o centro dramático e geográfico do mundo que Miguel Torga criou.
A um Negrilho
Na terra onde nasci há um só poeta.
Os meus versos são folhas dos seus ramos.
Quando chego de longe e conversamos,
É ele que me revela o mundo visitado.
Desce a noite do céu, ergue-se a madrugada,
E a luz do sol aceso ou apagado
É nos seus olhos que se vê pousada.
Esse poeta és tu, mestre da inquietação
serrana!
Tu, imortal avena
Que harmonizas o vento e adormeces o imenso
Redil de estrelas ao luar maninho.
Tu, gigante a sonhar, bosque suspenso
Onde os pássaros e o tempo fazem ninho!
Diário VII
Capela de Nossa Senhora da Azinheira
Esta ermida , que é um templo seiscentista precedido por uma galé, com tectos decorados e altares recobertos de talha,
fica na coroa do monte em sentido ascendente a S.Martinho de Anta que se prolonga através de um vasto e cinzento mar de pedras. É um lugar de culto na romaria de 15 de Agosto.
A festa da padroeira realiza-se em Agarez no dia quinze de Agosto. É uma romaria como não há Segunda nas redondezas, conhecida em todo o Doiro, que mete poviléu das cinco partes do mundo. [...]
A procissão sai da igreja às dez e meia, e atravessa Agarez antes de meter pela serra cima a caminho da ermida.
A Criação do Mundo
Miradouro de S. Leonardo de Galafura
S. Leonardo de Galafura é o
miradoiro por excelência das encostas durienses, donde se avista o rio, ao fundo, a serpentear entre a montanha.
S. LEONARDO DE GALAFURA
À proa dum navio de penedos,
A navegar num doce mar de mosto,
Capitão no seu posto
De comando,
S. Leonardo vai sulcando
As ondas
Da eternidade,
Sem pressa de chegar ao seu destino.
Ancorado e feliz no cais humano,
É num antecipado desengano
Que ruma em direcção ao cais divino.
[...]
Diário IX
Pinhão
Pinhão, sítio mágico entre todos da região.
Pinhão, 25 de Setembro ¾ Não pode haver no mundo coisa mais bela do que o vale do Pinhão, quando estas primeiras tintas do Outono o visitam. A gente olha de cima, e não está mais na terra. Debruça-se sobre um abismo de cor, ao fim do qual dois rios se bebem com sede um do outro. Mas não há uma linha decente a dizer isto, não existe uma lenda a almofadar tanta beleza, nunca um poeta por aqui passou com a lira na mão.
Diário III
São Salvador do Mundo
Não se pode efectuar um trajecto por Trás-os-Montes e Alto Douro que não acabe na penosa subida para S. João da Pesqueira, com destino a outro ponto de observação magnífico:
S. Salvador do Mundo . Estamos em pleno
Douro vinhateiro , cuja paisagem engrandecida se transfigura ciclicamente após a colheita do preciso néctar.
LITANIA
S. Salvador do Mundo… de granito:
Que salvate, afinal?
Ossos e ossos deste velho mito
Que, sem terra, se chama Portugal.
Nós nas giestas pedem-te, devotos,
Carne de alcova, húmus de semente.
E são fragas que dás, beijos remotos
Num corpo que no céu há-de ser quente.
S. Salvador do Mundo… português:
Temos rezado tanto,
E dás-nos este monte, esta aridez
Feita pela erosão do nosso pranto!
Diário IV
Lamego
A cidade de Lamego inscreve-se na passagem da vida do escritor à fase da adolescência. Refere-se o percurso que ele fez entre S. Martinho e Lamego, com a travessia do Douro pelo meio, a caminho do seminário que lhe deixou recordações amargas da cidade.
Ia na frente, de fato preto, montado na jumenta, a segurar o baú de roupa que levava adiante de mim. Meu pai e minha mãe vinham atrás, a pé, ele com os ferros da cama às costas, e ela de colchão e cobertores à cabeça. Assim percorremos as seis léguas que vão de Agarez a Lamego, pelo caminho velho. Senhora da Guia, Senhora do Bom Caminho, Senhora da Boa Morte, Vila Seca, Poiares, Régua... De alma negra, olhava a paisagem grandiosa que nos acompanhava, e via nela apenas a minha sombra. Papa-hóstias, como dissera o senhor Botelho... Era tudo o que eu podia vir a ser na vida. [...]
A Criação do Mundo
Seminário de Lamego
Do seminário de
Lamego , ficaram imagens muito impressivas na memória de Miguel Torga:
A República tomara conta do edifício [...] e transformara-o em quartel. Por isso, vivíamos em grupos de dez e doze, espalhados pela cidade, comandados por um mais velho, e íamos às aulas à residência dos professores .
Aos Domingos [...] juntávamo-nos todos na Sé, assistíamos à missa, e no fim, a ouvir obscenidades dos caixeiros aperaltados, que tocavam no cotovelo do vizinho a passar o enguiço - Lagarto! Lagarto! -, seguíamos a dois e dois para a Meia Laranja, ao fundo da escadaria da Senhora dos Remédios, e aí nos divertíamos.
A Criação do Mundo
Porto
Seguindo o curso do Douro chega-se à Foz e ao Porto. Torga conheceu a cidade numa experiência de trabalho, era ainda muito jovem mas, de vez em quando, tinha necessidade de a revisitar mesmo que fugazmente.
Eu gosto do Porto. [...]
Gostem do Palácio de Cristal que Deus haja, cujo nome era já de si límpido e de conto de fadas, e dos seus jardins debruçados sobre o Doiro, que a certas horas lembra um rio de luz a correr; não acabem com o Passeio das Virtudes, onde certamente o Soares de Passos namorou candidamente; não matem o Senhor de Matosinhos, nem se esqueçam da Rabela do Senhor da Pedra. E, sobretudo, que o Porto mantenha inteira, lusitana e pagã, a báquica festa de S. João!
Portugal (O Porto)
Minho
Desviando o rumo da linha do Douro, Miguel Torga conduz-nos até ao Minho, a
terra da monotonia verdejante , satirizada até à exaustão por contra-ponto a Trás-os-Montes.
MINHO
O verde come o resto do arco-íris.
Quem quer vir combater
Contra a monotonia?
O vinho é verde, a dor é verde, o mar é verde...
Tudo é verde e se perde
Numa verde agonia.
Diário IV
Braga
Na cidade de Braga é indispensável uma visita ao Sameiro, à Sé e à Biblioteca,
Por entre sebes de promiscuidade vegetal, meti direito a Braga.
Não é que eu morresse de amores pela terra que o minhoto Eça julgou pouco melhor do que Jerusalém. É que, em certas horas, antes um padre-nosso do que uma imagem de pesadelo. De resto, até numa pequena e banal cidade de santeiros e seminaristas pode haver lugar para um poeta. Unamuno escreveu no Bom Jesus do Monte uma página bem bonita sobre certa camélia que nas asas duma promessa foi ao Brasil e voltou. A retina perscrutadora do mocho biscainho soube encontrar entre a profusão de escadas, fontes, apóstolos, capelas, hotéis, esplanadas, miradoiros e lunetas de alcance a nota exacta e reveladora da alma subterrânea do português minhoto. Num simples ex-voto estava ali documentada uma pureza ingénita, religiosa e lírica, que o tempo e o poder só souberam conspurcar.
Escabreado como vinha da visita de revisão que comecei por fazer à enormidade do Sameiro, (...) na Sé, na Biblioteca e na esquadra apenas encontrei teologia. Muita ciência de Deus no ritual, nas estantes e na ordem pública, mas onde se não descortinava a mais pequena faísca de imaginação. (...) O presente era o que se via. Até nas ruas vulgares da cidade arquiepiscopal e nos seus pobres monumentos se estampava a indigência criadora de oitocentos anos de cantochão. Nenhum esplendor material testemunhava o espiritual.
Felizmente que os poetas, como os ciganos, são a vergonha do consenso universal. Nunca se demoram em cada terra senão o tempo suficiente para colherem nela o fruto mais doirado.
Portugal (Minho)
Ponte da Barca
Neste percurso Torga evidencia a sua faceta de verdadeiro turista, alguém que cultiva o turismo como ele próprio reconhece por um "funda necessidade cultural". Assim, palmilha o país de lés a lés na descoberta da verdadeira realidade telúrica humanista histórica e cultural: É a hora de avançar para o Alto Minho, onde o património religioso domina toda a cena, nomeadamente o de Ponte da Barca.
[...] cheguei a Ponte da Barca e perdi-me a visitar o românico da Ribeira Lima. Muia, Bravães, S. Martinho de Castro... Solitárias, sem fiéis, as negras capelinhas, destinadas a uma crença toda interior, pareciam-me ali penitenciárias de Deus numa paisagem festiva. Como Rates, Rio Mau, Roriz e Paços de Ferreira, foram equívocos do espírito religioso. Recalcamentos em pedra da exuberância dos sentidos. O barroco do Mosteiro de Tibães é que espelha sem constrangimentos uma euforia paradisíaca entre vergéis. Ele e o rafeiro estilo das ermidas, dia e noite a pedir arcos e balões.
[...] Em Melgaço, do alto do castelo, tentei abranger num relance a pátria toda.
Portugal (Minho)
Gerês
Neste incessante percorrer das terras portuguesas, o Minho só começa a ser verdadeiramente apreciado quando se aproxima de Trás-os-Montes e se depara com a serra do Gerês, coroada de gigantescas penedias.
O património religioso que o atraíra, positiva e negativamente no Minho, dá lugar no Gerês à paisagem que entusiasma o escritor e o homem serrano. Torga admirou os
carvalhos do parque , dedicou-lhe mesmo um poema, subiu às
alturas rochosas , arriscou-se pelas vertentes mais perigosas das grandes fragas, extasiou-se com a beleza natural de toda essa região:
Quando dei conta, estava no topo da Serra Amarela a merendar com a solidão. Tinham desaparecido de vez as cangas lavradas e coloridas que ofendiam as molhelhas do suor verdadeiro. A zanguizarra dos pandeiros festivos e as lágrimas dos foguetes já não encandeavam a lucidez dos sentidos. Os aventais de chita garrida davam lugar aos de estopa encardida. Nem contratos pré-nupciais ardilosos, nem torres feudais, nem rebanhos de homens pequeninos, dóceis, a cantar o Avé atrás do cura da freguesia. Pisava, realmente, a alta e livre terra dos pastores, dos contrabandistas e das urzes. [...]
Agora sim! Agora podia, em perfeita paz de espírito, estender a minha ternura lusíada por toda a portuguesa Galiza percorrida [...] à boca do palco reflectiam-se as várias albufeiras do Câvado, a redonda pureza da Cabreira e a beleza sem par do Gerês. E o espectador emotivo já não tinha necessidade de brigar com o cavador instintivo que havia também dentro de mim. [...]
Portugal (Minho)
Gerês - Parque Tude de Sousa
Na verdade, ao empreender uma escalada a quase todos os pontos mais altos da serra do Gerês, Torga diviniza as montanhas e, através de um ritual, transforma-as em lugares paradisíacos de retemperamento de forças que a agitada vida citadina agastou. Daí o seu culto a estas divindades telúricas, ao rezar
"orações pagãs no altar de Cabrões, antes de subir à Nevosa e aos Cornos da Fonte Fria".
Esta empatia entre o homem e a Natureza está bem expressa nas deambulações que Miguel Torga encetou pela região, referenciando, particularmente, um passeio matinal no parque Tude de Sousa.
Gerês, 17 de Julho de 1975 ¾ - Passeio matinal no parque, o mais belo que conheço. [...] Tutelados pela montanha, dois milagres entrelaçados: o milagre do que estava e o milagre de não o estragar. Ciclópicos calhaus rolados adormecidos no leito do ribeiro, trutas a nadar, carvalhos centenários a reflectir a pujança na limpidez da corrente, eucaliptos pernaltas a furar o tecto da folhagem e a perderem-se no céu, naves góticas de tílias rescendentes onde ressoa a música das águas batidas, e manchas de sol peneirado a colorir o chão, num derrame de luz.
Diário XII
Chaves
Do Gerês dá-se um salto ao vizinho Trás-os-Montes, e por Pitões das Júnias, pela região do Barroso, enfrenta-se o macadame em direcção a
Chaves . Desde logo, impõe-se a inevitável visita
às termas que Miguel Torga frequentou regularmente, a partir de certa fase da sua vida. A cidade agradava-lhe e circunscreve-a num parágrafo:
Chaves, 14 de Setembro de 1971 ¾ - Gosto destas cidades pequenas, frutos urbanos em que a polpa deixa ver ainda o caroço à volta do qual se desenvolveu: a praça do município, enquadrada pelo castelo , a igreja matriz, a casa da Câmara e a Misericórdia, com o pelourinho no meio a garantir a justiça. Superam gregariamente - na sua disciplina alinha e varrida - a anarquia e a promiscuidade do aglomerado aldeão, conferem liberdade e dignidade ao habitante, que, para além disso, pode continuar nelas a respirar o oxigénio puro do campo, a ver a paisagem, e a saudar a alvorada com um assobio salutar, como o que me acorda todas as manhãs desde que aqui venho.
Diário XI