O HOMEM, O ESCRITOR
Esboço de retrato


João de Araújo Correia nasceu em Canelas do Douro, na Casa da Fonte, na madrugada de 1 de Janeiro de 1899.


A primeira canção que ouvi/Foi a da água,/Que jorrava/ Clara mágoa/No tanque onde bebiam, ao escurecer/Os animais cansados de sofrer.
Tal qual virá a dedilhar no seu único livro de poesia Lira Familiar.
Muito cedo desce à Régua para frequentar a escola e alargar os seus estudos para além dos primários. O estabelecimento escolar situava-se na Rua de Medreiros, onde viveu em criança e veio, mais tarde, a fixar residência e a abrir consultório médico, que manteve para toda a vida. A longa vivência nesta rua da Régua possibilitou-lhe interessante matéria transposta a muitas das suas crónicas.

Rua de passagem entre Peso e Régua… Antes de haver automóveis em barda, quem animava a Rua de Medreiros, de dia e até de noite, eram as mulheres do povo miúdo… sempre zangadas umas com as outras, batiam-se de sol a sol e lua a lua com a apalavra aguçada e, às vezes, dente aguçado. A troco de nonada armavam ralhos.
Pátria Pequena

Depois da instrução primária feita na Régua, conclui a 5.ª classe e exames singulares de inglês e francês em Vila Real (1912). Seguidamente, na Escola Académica do Porto, completa, em três anos, o Curso dos Liceus. João de Araújo Correia, com dezasseis anos de idade, entra para a Escola Médica do Porto, mas, por falta de saúde, vê-se forçado a interromper os estudos ao fim de três anos de proveitosa frequência. Leva seis anos a restabelecer-se, em Canelas do Douro. Durante todo esse tempo, muito se cultivou, lendo, reflectindo, observando o povo e a natureza. Regressado à Faculdade, conclui a licenciatura em Outubro de 1927. Em Março de 1928, abre consultório na Régua, onde passa a exercer clínica geral até poucos meses antes do falecimento, ocorrido no último dia do ano de 1985. Foi médico de pobres e ricos, na Régua e por terras e Quintas desgarradas das redondezas.

Já não há Joões Semanas, porque já não há médicos de aldeia. Mas, João Semana continua vivo. Desapareçam as éguas, os guarda-sóis de paninho, os chapéus de aba larga, a seriedade e as anedotas, que João Semana permanecerá.
Pontos Finais

Educou cinco filhos, com a sua magra bolsa de médico. Contudo, não pôde ser o viajante que sempre sonhou. Conheceu Portugal até às ínfimas aldeias, muita Espanha e alguma França.

Como sou madrugador, pensei que não houvesse, lá pela Espanha, quem me levasse as lampas neste particular. Multum falerris… mal me levantei, deu-me os bons dias, muito fresco, um dos jornais de Leão, deitado por terra à porta do meu quarto.»
Pó Levantado

O seu primeiro estudo publicado — Linguagem Médica Popular Usada no Alto Douro — (1938) revela bem quanto, desde cedo, se encontraram o médico, o escritor, e o estudioso da língua portuguesa. E, desde então, jamais se viram separados. O médico, sempre tão íntimo do próximo, levava ao escritor as mais diversas figuras do teatro da vida real, recortadas num cenário de drama e de comédia. Além disso, sempre, sempre, a língua portuguesa vigilante das suas falas e dos seus escritos.

Quando lhe dei alta, perguntou-me timidamente quanto me devia.
— Nada!
Assim que eu disse isto, de cada olho de Pepe saltou uma lágrima reboluda. Fitou-me assim choroso durante dois minutos. Depois, meteu uma patica descarnada debaixo do travesseiro e retirou de lá uma bolsinha. Abriu-a com a satisfação de quem se sente rico e generoso. Daí a pouco, brilhava entre o dedo indicador e o polegar de Pepe uma moeda de cinco escudos. Entregou-ma, dizendo:
— Fume usted un cigarrito!

Contos Durienses

De esmerada educação e agradável convívio, João de Araújo Correia, no entanto, não perdia nunca um certo ar distante. Talvez esse aspecto da sua atitude pessoal o tenha ajudado a seleccionar amigos e relações.

Grande epistológrafo, manteve correspondência com distintas personalidades do seu tempo. No espólio do escritor podem ser encontradas cartas de Egas Moniz, Irene Lisboa, Ricardo Jorge, Júlio Brandão, Agostinho de Campos, Júlio Dantas, Aquilino Ribeiro, Fidelino de Figueiredo, Joaquim de Carvalho, Norton de Matos, Gago Coutinho, Pina de Morais, Leite de Vasconcelos, Abade de Baçal, António Sérgio, Adelino Mendes, Monteiro Ramalho, D. João de Castro, Oliveira de Guimarães, Abel Salazar, Vieira da Costa, Carlos de Passos e tantos, tantos outros não menos ilustres.

Além das paixões que teve pela Medicina, pela Literatura e pela Língua portuguesa, João de Araújo Correia foi um apaixonado pelas árvores. Por todas. Chegava a desviar a sua rota do dia-a-dia para ir visitar uma velha árvore, sua conhecida de há muitos anos.

…aquela árvore feliz estava ali para provar que uma aldeia velha, dialectal, arredia da chamada civilização, tem alma de poeta. Respeita a árvore onde a árvore nasce até que árvore morre. Sabe que é uma bênção .
Pátria Pequena

Mesmo em esboço, um retrato de João de Araújo Correia ficaria muito incompleto sem o traço que define o seu profundo sentimento de família. Com o sacrifício da sua magra e generosa bolsa de clínico geral, protegeu os pais e as irmãs até ao fim das suas vidas e deu um curso a cada um dos cinco filhos, segundo as suas vocações pessoais.

É, aliás, no respeito pela sua condição de clínico geral em terra de gente pobre, que João de Araújo Correia escreve o Depoimento de João Semana sobre a vida clínica de aldeia – uma conferência que fez no Clube Fenianos Portuenses, na noite de 21 de Outubro de 1944. Aí, ao seu jeito, com simples mas enormes palavras, assumindo uma humildade capaz de criar silêncios, João de Araújo Correia como que redige e apresenta o seu tributo de cumplicidade à profissão com que custeou a sua vida familiar e literária.

«Homem pensativo, homem solitário, que sociedade seria a minha, se não fosse médico? Nenhuma. Encerrar-me-ia numa torre e veria passar na terra, através das frestas, o ansioso tropel dos meus irmãos. Não conheceria a Comédia Humana. Como médico, parece-me que a conheço, porque o médico entra à caixa de todos os teatros. (…) Sou médico. Tenho ramo à porta como símbolo de tirania. Não me deixa comer a horas certas, nem me deixa dormir a sono solto. (…) O escritor perdoa ao clínico os dias e as noites que lhe rouba.»

É talvez desta simbiose, entre o médico, o escritor e o homem, que nasce o contista transversal e universal, passível de ser lido por todos, porventura de todas as idades, porque pela sua literatura passam de facto todos os personagens da tal comédia humana.
Camilo Araújo Correia