REGIÃO DO DOURO
O Douro enquanto sala de estar do olhar do escritor, percorrido por ele até às entranhas dos homens e das mulheres, é desde logo o plasma escolhido pelo homem que escrevia a desoras, para eternizar em contos e crónicas as casas, as ruas, as árvores, o drama e a comédia humana, o rio, claro. Fez jus a esta fidelidade duriense até mesmo nos títulos que escolheu para vestir as suas obras – Contos Durienses, Folhas de Xisto, Montes Pintados…

Tem montes que não param de crescer
Videiras que ninguém pode contar
Oliveiras erguidas a rezar
E um rio que não pára de correr.


CANELAS DO DOURO - CASA NATAL

Era uma casa de lavrador remediado, com piso térreo de lagares, adega e arrecadação agrícolas. No sobrado havia cozinha de lareira com escano, banco para os canecos da água e os móveis correntes de uma cozinha de lavoura.
João de Araújo Correia não se referiu, detalhadamente, às casas do seu percurso pessoal e familiar, mas há incontáveis referências, directas ou indirectas, em crónicas, contos, novelas e até em alguma da poesia que nos deixou.

Nasci numa casa branca,
Sempre caiada, antes da vindima,
Por Mestre Lima, o caiador,
Deitava para um prado,
Que alimentava o gado
De um lavrador.
Não tinha grande horizonte…
Mas tinha um quintal
Capaz de fornecer
Mesa real.
Não tinha grande horizonte,
Mas tinha ao pé uma fonte
Que refrescava em dia de calor.
Com ninhos de andorinhas no beiral,
E uma roseira, que deitava flor
No Natal,
Foi símbolo de amor.
Lira Familiar

PORTO - CASA DA RUA DA PRELADA

João de Araújo Correia recorda a casa que lhe serviu de escrivaninha de estudo e início de vida própria, na Rua da Prelada, no Porto, enquanto estudava Medicina, já casado e com dois filhos, onde terá iniciado as suas colaborações literárias e muitos dos escritos que, mais tarde, lhe serviriam de matéria prima para as notas sertanejas e crónicas que o haveriam de ligar afectuosamente à cidade invicta.

RÉGUA - CASA/CONSULTÓRIO

João de Araújo Correia abriu consultório pela primeira vez no n.º 79, na Rua Maximiano de Lemos, na Régua, e acabou por se instalar definitivamente no n.º 103, onde viveu mais de cinquenta anos, a cuidar de doentes e a escrever a maior parte da sua obra literária. Uma casa de dois pisos e sótão habitável. No rés-do-chão a sala de espera dos doentes e o consultório, no primeiro andar a biblioteca onde o escritor se recolhia para ler, escrever e conviver com os seus objectos pessoais. Nos restantes espaços da casa havia, ainda, uma secretária para que pudesse escrever em qualquer deles, bem como um cadeirão onde lia, meditava e dormitava. João de Araújo Correia escrevia, principalmente, na biblioteca, em horas mais disponíveis, e, no consultório, nas pausas do atendimento dos doentes. Numa boa manhã de Verão, por vezes também escrevia no terraço das traseiras da casa, contíguo à sala de jantar.

RÉGUA - MIRADOUROS

Não faltam no concelho da Régua, lugares altos, donde a vista se descobre curiosa ou contemplativa. São, em sentido amplo, os nossos miradoiros. Há-os em em Galafura e Poiares, Loureiro e Mouramorta, à espera de poeta ou de pintor. Mas, esses altos são desconfortáveis, só apetecíveis por quem for espartano ou naturista. Uma pessoa para os gozar, tem de se pôr de pé como um talefe ou de cócoras como um pedreiro. Sentado, só se levar calças de ganga ou disser adeus sem pesar às calças de casimira.
Pátria Pequena

FIAL

O lugar do Fial, a caminho de S. João de Lobrigos, Santa Marta de Penaguião, foi local de paragem obrigatória para o médico que acabava de fazer mais um domicílio. Ali parava para dar lugar ao escritor, enquanto fumava o seu cigarro e escrevia os montes na alma que animava João de Araújo Correia.

Não precisamos de sair do nosso concelho para avistar o Marão em sua cristalina formosura. De Poiares, é uma safira engastada num aro de montanhas. Aqui de cima, do Fial, lembra um pano rico, adaptado à estátua dormente de um colosso... Casa-se a graça com a severidade, num silêncio augusto.
Pátria Pequena

RÉGUA

Como ninguém mais, João de Araújo Correia desenhou a Régua como terra de rampas e socalcos, dando ao leitor, de qualquer ponto cardeal do país a exacta imagem da sua terra, sem contudo deixar de ser fiel ao seu espírito crítico e ao seu amor pela terra. Deu-nos uma imagem panorâmica da Régua, abrindo-nos as suas portas com o orgulho de quem mostra os compartimentos da sua casa ou os melhores retratos do álbum de família.

A Régua, donde quer que se aviste, é uma jóia. Mas, o que lhe dá realce é o estojo, isto é, a concha em que assenta, a bacia da Régua , com as suas montanhas, as suas colinas e o seu rio. Tocada de perto, sem escrínio à vista, desfaz-se-lhe o encanto. É uma jóia de chumbo ou, quando muito, de plaqué. Mas, dentro da vila, os pontos donde se descobre a paisagem ambiente, são belos. É belo o Cais , bela a Alameda e bela a Estrada Nova.
Pátria Pequena
CALDAS DO MOLEDO

O lugar e o Parque da Estância Termal de Caldas do Moledo , a escassos quatro quilómetros da Régua, estiveram sempre na mira e na preocupação de João de Araújo Correia, que lhes dedicou inúmeras crónicas de aplauso ou aviso, mas sempre em sua defesa, o que lhe valeu uma homenagem , com a atribuição do seu nome ao balneário principal.

Houve tempo em que as Caldas do Moledo , a dois passos da Régua, foram em cada Verão sala de visitas da Régua. Ali se hospedavam, no Hotel das Termas, no Hotel Vilhena e no Hotel Gomes, ou em modestas casas particulares, centenas de banhistas, que, em horas forras do banho, vinham até à Régua espairecer. Eram também nossos hóspedes

Há quem se lembre, saudosamente, desse tempo áureo. Há quem se lembre, com admiração imarcescível, de ilustres veraneantes, que tanto honraram as Caldas como a Régua. Recordemos, como exemplo, a figura esguia, o nariz de cavalete, os modos finos do grande matemático Duarte Leite.

Pátria Pequena
ESTAÇÃO DE CAMINHO DE FERRO

João de Araújo Correia deslocou-se toda a sua vida de comboio, ao Porto, com alguma frequência, e a Estação da Régua mereceu-lhe sempre apreço especial e alguma crítica em defesa, numa crónica curiosa que escreve na terceira pessoa, publicada em primeira mão sem nome de autor, para que pudesse citar testemunhos seus escritos em outros locais.

A Régua, como capital do Douro, pátria do vinho fino, exige uma estação mais eloquente do que um simples letreiro pintado numa parede…um edifício que proclame ao viajante, mesmo sem letreiro: aqui é a Régua! Uma estação que fosse o Douro escrito em azulejos…
Pátria Pequena
A “CASA DA COMPANHIA VELHA”

De entre muitos textos de João de Araújo Correia em defesa do património ou, para ele, alvitrando futuros capazes de o eternizar com utilidade e respeito, fica aquele que marca a existência da Régua como urbe e centro comercial de toda a região de então — a Casa da Companhia Velha.

Poucas terras haverá que conheçam, como a Régua, o berço donde saíram para brincar pela primeira vez. A Régua conhece-o. É o edifício da Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro… A Régua deve querer bem à casa que lhe deu o ser, o ninho donde voou para construir outras casas…
Pátria Pequena
RIO DOURO

De todos os olhares, dirigidos da quase totalidade dos seus lugares de inspiração, o rio Douro é, em última instância, o espelho de todas as inspirações de João de Araújo Correia. Ao longo dos seus livros de contos, crónicas e novelas, são inconatáveis as referências que o escritor faz ao rio Douro, sem nunca o isolar para fazer dele peça literária.

... Desse retalho de terra, sempre verde, avistava eu, ao desenfado e sempre que queria, um velho amigo, um trabalhador incansável, que me viu nascer e me abandonou de um dia para o outro. Quero referir-me a um rio arcaico , milenário, que me contava uma história cheia de pavores e doçuras, quando me via sentado, num banco de pinho, ao fundo do meu quintal. Esse rio morreu, deixou de ser rio para ser um lago artificial imenso , parado ou pasmado a meus pés, como cadáver que a morte dilatasse. O dinheiro dos homens, para se multiplicar, a troco de dar luz e energia ao mundo, pega no meu rio, que era bravo e impetuoso como um toiro, e amansa-o em lago. Fez dele um boi no pasto ou uma choca no fim de uma toirada. O meu rio, que era poeta heróico e poeta idílico, ao sabor das horas, que as contava de todos os feitios, era também artista. Com que paciência, durante séculos de séculos, não foi esculpindo, na rocha dura, maravilhas de arte... Hoje, lago empanturrado, mais rico que um porco, já não tem força e até se envergonha de pegar no maço e no cinzel. Deixá-lo, que o progresso manda...
Pontos Finais

RÉGUA - CAIS DE EMBARQUE

Diversos lugares de contemplação, na Régua, estão eternizados na obra de João de Araújo Correia. Entre todos, o cais de embarque mereceu sempre a sua melhor atenção e os seus reparos. Considerava-o o melhor e mais arejado aposento da casa.

A comparação do melhor quarto da casa com o ponto mais belo dos burgos provincianos acode-nos ao espírito sempre que visitamos as imediações do nosso cais. Após o deslumbramento que sempre nos causa a vista do rio, com a sua voluptuosa curva, a miragem das colinas de além, a cúpula do céu encastoada em montanhas, caímos em tristeza ao desviar os olhos do mirífico cenário para o estrume em que poisamos os pés.
Pátria Pequena

MARÃO

Conheço o Marão desde que me conheço. Nasci diante do seu vulto, quero que a sua presença me acompanhe até o fim. Para o ver, saio de casa e ponho-me a caminho. A poucos passos do Peso (da Régua), bairro alto da vila em que trabalho, já o descortino. Sobressai, vestido de azul, das vinhas que o cercam. Esbate-se à luz diurna. Mas, à tardinha, a sua cumeada é um nítido desenho […]
O Marão é a nossa serra. É a muralha que nos separa do mundo, fazendo de nós um mundo à parte. Separa o trasmontano do minhoto como se dividisse a violência da amenidade. Tempera o nosso carácter, sublima o nosso vinho, dá ao nosso clima altitudes de céu e profundidades de abismo. É ele o nosso autor – bons ou maus como somos.

Horas Mortas e Pátria Pequena
PORTO

A geografia literária e sentimental de João de Araújo Correia abrange também o Porto — o velho burgo da sua mocidade estudantil —, o Porto romântico e «o Porto culto».

A Foz Velha, que foi sempre asseada, redobra de asseio às primeiras ameaças de Outono. Dá volta aos telhados e às frontarias. De pincel e caldeira, o trolha vai caiando, pintando e repintando as fisionomias deste casario, à margem de ruas que falam de Camilo. […] A Igreja de S. João da Foz, vista de fora, não é grande coisa. Mas, por dentro, é um alfobre de altares ricos de talha. […] Ninguém descobre, na vizinhança da igreja, a quinta onde brincou, com os primeiros sonhos, o Raul Brandão. Ninguém dá notícia da fonte que ali murmurava, nem do renque de hidrângeas, nem das laranjeiras. Substituiu o quintal um dispensário, que poderia erguer-se noutro sítio. Mas, a casa do pai e mãe da ternura ainda não caiu. Embora adornada de persianas brancas, pintada e repintada de vermelho como repapoila, ainda se pode ver. É o lar donde saiu o poeta que azulava de melancolia o interior de tudo quanto existe. A Cantareira, formigueiro de barcos, ainda será porto de pesca. Mas, ouve-se dizer que já se não atreve com a bela pescada do tempo de Ramalho. […]O Porto, que foi sempre duro, ri-se da Foz Velha, que foi sempre amável. Como será daqui a trinta anos?
Nuvens Singulares