Excertos do roteiro "Viajar com… Aquilino Ribeiro" da autoria de Alberto Correia

BEIRA/terras do demo

Da região da Beira, com uma fatia do Douro, Aquilino guarda as impressivas imagens da infância, as míticas narrações de avós, o disforme amontoado de rochedos na serra, os dólmenes perdidos na paisagem, a sombra de uma torre, a leitura de um pergaminho antigo, tudo serviu para escrever sobre as origens, as suas e as do mundo.

Guarda também a lembrança da natureza toda, a serra, o vale, a horta e o pinheiral, a terra lavrada, as tílias florindo, a passarada em fuga, o uivar dos lobos.

Iam subindo as ribanceiras da serra, vestidas com as cores mortiças do Agosto já alto, sombrio nas matas, dum loiro esvaente no chão ralo de seara, pardo pelos morros, tons de chama nos coutos. Uma lágrima de sol coalhado no tojo e no sargaço, uma estranha flor azul suspensa de fina haste como alfinete de chapéu, falavam ainda do Maio que pelos montes arrastara rica capa de asperges, episcopal. Sentia-se o Outono a entretecer os primeiros crepes no catafalco de brocados que era a terra. Mas, para o vale, por entre as lombas, da poalha doirada do sol emergia o luaceiro verde dos milharais e campos de semeadura. Uma nesga do rio cintilava a todo o fundo, e era um espelho ora a quebrar-se ora a refazer-se do vivo lume. E nas abas dos lugares, soutos em flor erguiam na alvura espacial feiras de oiro, da mais abundante e fantástica joalharia.
Andam Faunos pelos Bosques



SOUTOSA

Soutosa é, na Beira, o lugar paradigmático de criação. Primeiro enquanto casa paterna. Depois porque ali regressa aos dezanove anos chamado pelo pai, depois do abandono do Seminário e da primeira breve experiência de Lisboa.
Mais tarde Soutosa torna-se um segundo lar onde voltará todos os anos, sempre por três meses, no Verão. Aqui recebe os amigos, mete conversa com a gente que passa, entretém-se com os seus conterrâneos camponeses que lhe contam as últimas histórias.

Quando me instalo na aldeia - e nunca será para menos do que os três meses de Verão - hei-de levantar-me infalivelmente com a alba. À sua luz indecisa bailavam os turdetanos, nossos avós, saio eu com a minha indócil pachorra. Ainda no adro da capela não estreloiçou o primeiro tamanco de zagala a tanger o rebanho para a serra; ainda os pardais, que elegeram domicílio nas glicínias e na vinha virgem que revestem a casa, não deram sinal de presença, e todavia são tão matutinos que o primeiro raio de sol, porventura o raio verde, o hão-de aparar a céu aberto, no telhado ou coruta de árvore. O banho auroral é para eles o que é para nós o chuveiro. Mas estão ensonados, ao abrigo das folhas, como cingaleses debaixo do chapéu de palma. Basta, porém, que eu bula no pátio, e, como se recebessem senha, lá porque tenham contraído este hábito ou porque não aceitem que outrem seja mais madrugador do que eles, ei-los que despertam. São dilúvios, e revoam, saltam, chalram. É a grazinada dum colégio que se derrama de ímpeto para os pátios de recreio.
Geografia Sentimental


Na sombra das tílias, uma janela dá luz para esse espaço recolhido que ele talhou para si e onde coube o mundo inteiro.

À noite, depois das Trindades, quase ao morrer do dia, quebro por instantes a quietude irreal do meu gabinete de trabalho . Um Cristo olha-me da parede, não sei se com olhos compassivos se dolentes, envoltos em órbitas maceradas.
Nas prateleiras os doutores engenhosos, os espíritos satânicos, os romancistas amenos, perfilados como monges a ouvir homilia, convidam-me a entreter-me com eles.
- Amigos repousai, dormi em vossos envoltórios de carneira e pergaminho. Que os silfos subtis que presidiram à vossa concepção e com certeza sobreviveram ao acto criador, pairem, volteiem e, sim, vos preservem do olvido e da morte. Não será em vossa selva maviosa que ora se embrenhem os meus olhos, cansados de sol, de poeira, das emanações da gasolina, dos luze-luzes ludibriantes das estradas.
Geografia Sentimental


Carregal

O Carregal é a aldeia natal. É o berço. É o princípio.

Retrocedendo nos limbos do passado até onde a minha memória é como a lanterna de um mineiro perdido no fundo de uma galeria, que vejo? Vejo no grande e desmantelado pátio fidalgo a nossa casa, de lojas para animais e habitação, com sua obsequiosa escada de pedra e um esgrouviado sabugueiro a bater atónito nas vidraças, que deitavam para o povo, sempre que o vento suão soprasse mais forte.
Cinco Réis de Gente


No quintal um cipreste, na horta contígua da Leopoldina outro, dois belos exemplares do cupressus fastigiata, piramidais e exclamativos, faziam imponente plantão aos mortos. O nosso era mais velho e olímpico, mas diminuído por uma pelada que a meio lhe punha a descoberto a nervação fascicular. Ambos eles se tinham tornado densíssimas cidades de pardais. Na Primavera os garotos, seus encarniçados salteadores, furavam como esquilos, por eles acima. E, do fundo ao alto, sob a carapaça da folhagem, espécie de bainha de astracã sem costura, saqueavam os ninhos.
Estes ciprestes, quando, nos dias de Inverno, ia esmurrar o nariz contra as vidraças em que a chuva rufava e desdobrava suas toalhas de água, pareciam entesar-se ainda mais na corpulência de bronze. Batidos pelo vento, não gemiam como as demais árvores. Também não esbracejavam maciços como eram, apenas inclinavam levemente a coruta esguia, percorridos por um brando tremor. Eu olhava para eles, assim mudos, fixos e sobranceiros, e recebia deles uma lição de altitude e de firmeza.
Cinco Réis de Gente


LAPA

A Lapa era , ao tempo, um esquecido lugar carregado de memórias da mítica "cidade" que os Jesuítas levantaram. Aquilino Ribeiro conheceu a Lapa toda, tão pequena era, olhando das janelas do Colégio, reparando melhor durante os passeios de domingo.

O lugarejo da Lapa , terra de padeiras, era nada mais nada menos que o produto do camartelo eclesiástico. O civil, se alguma vez ali existiu para outras funções que não fossem as de serventuário do clero, estiolou a curto prazo e feneceu. Logo à mão esquerda estavam o pelourinho e as ruínas setecentistas da cadeia a certificar. Mais adiante, a casa de cornija e patim alpendrado tanto podia ser a domus municipalis como o esprital dos romeiros. Até ao santuário, com a fachada jesuítica de tope, ligado por um arco de passadiço à bisarma de pedra lavrada que era a residência da Companhia, havia duas curiosas albergarias para peregrinos e visitadores e quartéis em profusão, espécie de celas a alugar aos rústicos que vinham dealbar a alma nas semanas místicas do S. Barnabé e Espírito Santo.
Uma Luz ao Longe


COLÉGIO DA LAPA

Aprendiz de padre ou de doutor, com dez anos ainda por fazer, Aquilino parte para o Colégio da Lapa a cavalo na égua Inácia que o criado Monge trará de volta a casa de seus pais. Menino de bem-querer, Aquilino estranha a falta do aconchego da família e sofridamente suporta o internato que durou dois anos.

No recreio da tarde, uma revoada de rapazinhos, pouco mais ou menos da minha idade, precipitou-se pela camarata, vindos uns das aulas, outros da sala de estudo. Em breve achei - me no meio deles como em pleno arraial. (...) Cá está o novo!
(…) Éramos entre cinquenta a sessenta rapazinhos, e no recreio faziamos guerras assanhadas e quebravamos denodadamente a pinha uns aos outros como nunca. Pulmões lavados pelos mil metros de altitude, comiamos carne de cabra de manhã, ao meio-dia e à noite; e apanhavamos palmatoadas pela medida grande, louvado seja Deus, a qualquer hora.
Uma Luz ao Longe


SANTUÁRIO DA SENHORA DA LAPA

O Santuário da Lapa constitui-se como o abrigo de uma gruta feita de gigantescos rochedos, a pequenina imagem da senhora, o ingénuo presépio de barro colorido, o impressivo altar da crucifixão com Salonguinho a ferir o lado de Cristo, o lagarto preso por cambalheiras de ferro no alto da nave e as paredes do templo carregadas de ex-votos.
A verdadeira história da Senhora da Lapa , essa toda a gente a sabe nas terras em volta.

Era uma vez uma pequena pastora de nome Joana, surda e muda de nascença, que vivia com sua mãe na aldeia de Quintela, na serra da Lapa. Certo dia, abrigada com o rebanho numa gruta, encontrou uma pequena imagem que chamou de Senhora da Lapa. E guardou-a na cestinha de pastora.
A mãe descobriu a imagem. Pensou que a filha já não tinha idade para bonecas e atirou-a ao lume da lareira.
Joana gritou: Ai! Minha mãe, que é a Senhora da Lapa!...
Ficou tolhida a mão da Mãe. As duas ajoelharam-se e rezaram. E curou-se a mãe. Joana para sempre ganhou voz e as duas proclamaram pelas ruas da aldeia aquele prodígio.
A imagem salva do lume foi colocada num altar da igreja. Mas, ao amanhecer do dia seguinte, quando os pastores iam para o monte, a imagem desaparecera do altar. E encontrou-a Joana no desvão primitivo da sua lapa.
E a gente da aldeia compreendeu que a Senhora da Lapa era ali que queria estar.
A. Correia e Brasilina Silva, in A Lapa.
Ed. Santuário da Lapa. 2001


SERNANCELHE

Sernancelhe , lugar onde o pai de Aquilino Ribeiro foi recebedor pouco afortunado, segundo a efabulação de Cinco Réis de Gente e de Uma Luz ao Longe.
Aquilino, se hoje nos levasse lá, pelo caminho conversaria sobre os pergaminhos da vila que teve foral antes de Portugal ser reino, que teve castelo de Mumadona, igreja românica de traça e original decoração na frontaria, que teve pelourinho e cadeia, Casa da Comenda de Malta, varões ilustres nas Letras e nas Artes.

FREIXINHO

Descendo à beira do Távora, encontra-se Freixinho, terra abençoada, de hortas frescas, pomares, vinha e olival. Aquilino falar-nos-á do Dr. António Mota, seu amigo do peito, de que há ali a casa de família. Mais nos falará da sua tia Custódia que foi educada no Recolhimento , espécie de pequenino mosteiro onde as mulheres entravam sem votos e onde as educandas não tinham que ser freiras.

Pois foi o egrégio pregador a Freixinho e, no decorrer das festas, aconteceu-lhe falar em Custódia, tais elogios lhe tecendo que a madre priora não descansou enquanto lhe não levaram a moça. Foram com ela mãe, pai e irmão, por estremecimento que não com intenção de encarecer tal jóia. Ora, mais depressa que chegasse, mais depressa lá ficava. Tomaram-na, desobrigada de qualquer pensão. Sim, o pai não pagava nenhuma espécie das alcavalas cobradas às outras educandas. Agora, se havia caminho bem trilhado por peitas e que ficasse assinalado, aos olhos da cara de quem as levava, em suas pedras, seus barrancos, suas árvores, era esse do Convento. Cabritos, trutas, primores da terra, mimos da salgadeira, caça na época própria, tal o rio de presentes a correr de Lomba para Freixinho.
Cinco Réis de Gente

VILA DA RUA

Estrada fora, marginando o Távora sobre a esquerda, fica Adebarros com seu paço senhorial, mais longe a Vila da Rua que tem cadeia e pelourinho e um chafariz de cantaria lavrada para ali vindo da cerca dos frades de S. Francisco.

Sentado na borda do tanque, que uma figueira toldava de deleitável sombra, instruía-me o senhor padre Ambrósio da latinidade. Homem de muitas letras, já ruço, mas ainda de bom garbo nos seus setenta anos, sãos de alma e de corpo, antes de abrir Horácio, aprazia-lhe lembrar num doce tom de iluminado:

Neste sítio, Libório, descansou o grande padre S. Francisco de jornada para Compostela. Reza a história que o servo de Deus vinha trilhado do caminho e tinha sede; aqui lhe foi dado matá-la numa fontainha, que não era este chafariz formoso, talhado, mais parece, para os jardins do papa que para cerca de monges. (...)
De três bicas, manando de rosáceas num pano de gracioso corte, com o entablamento coroado por pirâmides e um frontão em que se vazava uma guarita de santinho, apenas uma escorria no tempo da seca. Se pelos meses de águas vivas todas três botavam, na tristeza das horas sem luz, à borda do silêncio revessado pelo convento, seu gorgolão era grave como uma salmodia de monges.
De bordo em curvas e segmentos, alternantes, de rectas, o tanque era, de em par com o lineamento da escaleira que poucos passos dali conduzia à capela, duma ordenança mais harmoniosa que as rendas por minha mãe tecidas. Sobre ele erguia-se a figueira de muitos anos, sombreando o lugar a que a presença de S. Francisco dera um perfume místico de lenda.
A Via Sinuosa
CONVENTO DE S. FRANCISCO

O Convento de S. Francisco tem história longa de contar.
Aquilino construiu ali um tempo de morada, adolescente ainda. Não passa de romance. Mas quem ler A Via Sinuosa jamais esquecerá o bucolismo do lugar, a solene invenção da Livraria, a dedicada ternura de Celidónia e essas mansas e sábias lições de Padre Ambrósio que abriram todos os caminhos do espírito do discípulo e os deixaram livres.

O tempo nas Beiras tem sido um semeador de cinzas. Os próprios caminhos, todos à uma, são fitas de cinema rico e variado, mas em que se apagaram as imagens trágicas ou ledas. Ali estão aquelas ruínas clamorosas do Convento de S. Francisco de Caria, a dobar para o Vale do Távora. Ninguém passava que a torre não chamasse com seus olhos vazados, obsessos, e não admirasse depois a albergaria, cujas frestas e balcão de balaústres alevantavam ali uma aragem de nobreza antiga, e logo ao pé a fachada da igreja setecentista com o nicho de Santa Teresa no tímpano. A vista, depois do breve reconhecimento, repousava consoladamente no panorama. Verão fora, chorava ali uma bica de água em que S. Francisco, segundo a lenda, matara a sede, de viagem para Compostela, e à roda, desde então, cantavam pelos séculos dos séculos os alegres pássaros dos ermos.
Geografia Sentimental


GRANJINHA

Nos barrancos do Távora fronteiros aos sete castelos de Paredes ergue-se, na Granjinha, a Capela românica de S. Pedro das Águias . É indispensável ir ver.

Aquilino situou perto daqui o solar de Santa Maria das Águias onde a gentileza dos senhores arrumou o primeiro emprego de catalogador de livraria a Libório Barradas, seu alter-ego, que ali encontrou, como em Bosque Deleitoso os primeiros eflúvios de amor profano nos braços de Estefânia, a jovial fidalga.

Vinha da quinta, que, se estendia de cerro para cerro em terra de vinhedo e de alqueive, um rescendor forte de rescaldo. Cantava para lá a poupa, que é a trombeta mesmo da canícula. O sol trepara para o alto, a mais não poder, e, no silêncio que me rodeava, ouvi as ferraduras da égua, apoquentada da mosca, baterem a trabuzana. Um molosso veio estirar-se, ao lado, na frescura dos plátanos, rolado sobre a ilharga, na enorme cabeça branca, larvada de ocre, os olhos fechando-se e abrindo-se fitos em mim. Trechos de vozes, como pedras num tanque adormecido, caíam a espaços da janela em que passaritava a figura alvarinha das moças.
O sol fervia como um enxame de abelhas alvoriçadas, quando, se meus olhos não mentiam, D. Estefânia se mostrou no balcão.
A Via Sinuosa


MOIMENTA DA BEIRA

Moimenta da Beira reclina-se numa encosta, tão branda, que o casario a desce quase imperceptivelmente. Converteram o antigo tavolado em jardim e leva-se nos olhos um roseiral.
Geografia Sentimental


LAMEGO

De Lamego guarda Aquilino doce recordação. Da passagem breve, para exames, estudantinho da Lapa. Da estadia mais demorada, no Colégio Roseira, do Padre Alfredo, um homem de enorme coração.

O castelo bronco , de panos cerrado, derramava sobre Lamego a poeira nebulosa dum crónicon. A crista de ameias esboroava, sorvada dos sóis e dos invernos; e, sobre a manta de farrapos do casario, dava a impressão dum sólido esqueleto de Hércules, inteiriçado à flor da terra, em jeito de reptar. Torva, sua fisionomia falava; falava ao Pátio dos Reis, ao torreão da Catedral e dizia-lhes: passaremos!
Toda a cidade me dava, melancolicamente, a sensação de ser conduzida pelo frenesi da morte! Logo à entrada de portas, para quem apeia de Moimenta, uma calçada arrastava pela ladeira acima cordões de casas em ripas, corcovadas, esguias, cheias de remendos e de cor. Nos caixilhos, rolhos de farrapos paravam há dezenas de anos o gume dos invernos. Rapazotes, de verga ao léu, chafurdavam em torno do pego que ali forma o Balsemão. Mulheres espiolhavam-se umas às outras na soleira das portas. Todo o bairro da Ponte me parecia uma judiaria antiga, onde cheirava ao pão ázimo dos sábados.
A partir de S. Lázaro, as casas de taipa entremeavam com residências solarengas, de granito. Eu achava-lhes uma grande nobreza nas pedras trabalhadas à escoda e nos brasões de linhagem extinta.
Meu mestre disse-me um dia que viera à cidade:
- Já reparaste, Libório, no luxo opulento de cantaria que há nestas portas e nestas janelas? Mormente nas janelas? Não é verdade que se diriam pequenos arcos de triunfo por onde passa, amiúde, um hóspede real?
A Via Sinuosa


ROMARIGÃES

Romarigães tem a dimensão, quase, de um primeiro amor.
Aquilino foi lá um dia e apaixonou-se pela Senhora do Amparo, patrona de uma capela em desdita. E construiu o mais belo romance de sempre onde se conta a aventurosa história da Casa Grande e de seus muitos senhores, vidas comuns que foram simultaneamente lirismo e epopeia.

Paredes de Coura : São 7,45 e uma leve bruma leitosa, quase velo de lã muito carmeada, flutua, sobre o cume dos montes. Mas essa gaze vadia, a esfiapar-se pouco a pouco, deixa a descoberto toda a moderação dos vales, e os rocios a florir, banhados pelo sol, faíscam e toucam-se, segundo o reflexo das folhas luzidias, dos mais variados cambiantes. Este Alto Minho tem a frescura das pradarias dentre Ave e Cávado , e a majestade da Beira. A serra de Arga aparece postada lá adiante a barrar-nos o caminho com as suas escarpasas de bronze.
Arcas Encoiradas
CASA GRANDE DE ROMARIGÃES

O esplendor do Minho está todo na Casa Grande e nenhum vate cantará melhor que Aquilino esta terra. Jamais.

Em menos de cinco anos estava acabada a Casa Grande, prédio de torre, com largos salões e muitos cómodos, no flanco a Capela de Nossa Senhora do Amparo, e uma cozinha de lajedo e chaminé de barretina, compreendendo lareira, armários, dois fornos em que se podia assar, ao estilo das comunidades conventuais, um boi no espeto. A fonte, perto do cargo, gorgolejava por uma bocarra, na sua carranca de Medusa, abundante e fresca água. E o bastio de pinheiros e carvalhiços cobria já o cerro em frente, unido à velha mata e populosa cidade dos pássaros. À tarde a brisa, que subia desde a costa pelo estuário do Coura, arrepiava-lhe brandamente as corutas e uma onda balsâmica e elísia varria a Casa Grande.
A Casa Grande de Romarigães


Aquilino foi um dia a Romarigães no Alto Minho e apaixonou-se pela Senhora do Amparo patrona de uma capela em desdita. E construiu o mais belo romance de sempre onde se conta a aventurosa história da Casa Grande e de seus muitos senhores, vidas comuns que foram simultaneamente lirismo e epopeia.

Aquele portal, estreito e meio esbarrondado, onde mal cabia uma parelha de cavalos, mandou-o desde logo abater e reconstruir. Em vez de uma porta só, gizou uma de carro e outra de serviço, com grandes tranqueiros de pedra lavrada à escoda e frades de resguardo às duas bandas. Sem faltar à traça primitiva setecentista, coroou-o de esbeltas pirâmides. No frontão inscreveu - bela peça heráldica, cinzelada a primor - as armas dos Montenegros entrecorridas com as dos antigos donos. E nada mais sobranceiro e filaucioso que essa entrada em cuja porta de ferro, de bandeira, um mestre serralheiro hábil estampara ainda o seu brasão ovante. (...)
É pena que se não possa regular a vida como um relógio, andando com os ponteiros para diante e para trás segundo a nossa conveniência. Como eu faria da Quinta do Amparo um jardim maravilhoso, a minha estância de contemptor do Mundo, e de Nossa Senhora, esta doce imagem de faces bochechudinhas, minha amiga do coração?! A Primavera, tantas vezes rebelde ao calendário, rejuvenesce tudo menos o homem. As leis da ciclidade física assim o mandam. Para o ano, por esta altura, voltarão as aves a cantar. Que chova, que faça um sol radioso, com o mundo vegetal pletórico de seiva ou mais aganado, à triste planta humana é que nada a afasta da sua carreira para a morte. Será ela a obra-prima da Criação ou a pior de todas?
A Casa Grande de Romarigães